POEMA DE ABERTURA

  • EIS UMA VERDADE DE PRIMEIRA INSTÂNCIA: A CRIANÇA VIVE EM ESTADO DE POESIA, O POETA VIVE EM ESTADO DE INFÂNCIA. Carlos Vazconcelos

14 de set de 2010

TUGÚRIO



Por Carlos Vazconcelos

Com as batidas na porta foi acordando lentamente do seu torpor. Havia tido sonhos confusos e intermináveis. Ora estava sozinho no mundo, condenado a estranha eternidade, ora fugia de uma legião de seres bizarros.

Uma voz engavetada ressoou seu nome deixando a sobra de um eco longínquo. Antes de abrir os olhos sentia náusea, dor de cabeça e um medo imenso. As pancadas na porta se intensificavam. Já não eram socos, mas chutes e safanões. Cada bordoada era uma porretada no crânio. A voz agora era grave e repetia seu nome ameaçadoramente. Outras vozes bolinavam seus ouvidos como uma tenebrosa música incidental. Um cheiro de bolor comunicava-lhe a recuperação dos sentidos. Só faltava abrir os olhos. Arregalou-os num ímpeto. Por que queriam pôr a porta abaixo? Chutes, socos, ameaças. Nada compreendia. Que crime cometera? Não conseguia mover o corpo. Desejava chegar à porta, destravá-la. Não podia. E percebeu que sua imobilidade exaltava ainda mais os ânimos dos inimigos. Rendido no leito, gotejando de febre e medo, só lhe era possível ver as pontas das próprias botas enlameadas, apontadas para o teto, no meio delas a moldura da porta, prestes a desabar. De repente, a tábua tombou inteira aos pés da cama e uma multidão invadiu seu campo de visão, atirando-se sobre sua carcaça. Bocas furiosas. Pescoços enrijecidos. Dois sujeitos corpulentos arrancaram-no do leito e o levaram.

Tornou a acordar. O ambiente agora era úmido e fétido. Verificou as palmas das mãos com olhos abismados. Mal podia acreditar. Teve visões difusas do seu inferno. Mas ainda não era hora de purgar a alma. Só quando voltou a si definitivamente é que foi recordando... aos poucos... E compreendeu, com assombro, que o pesadelo estava apenas começando.

Do livro Mundo dos Vivos (contos)