POEMA DE ABERTURA

  • EIS UMA VERDADE DE PRIMEIRA INSTÂNCIA: A CRIANÇA VIVE EM ESTADO DE POESIA, O POETA VIVE EM ESTADO DE INFÂNCIA. Carlos Vazconcelos

8 de jul de 2011

CORROSÃO



Carlos Vazconcelos

por dentro do casarão
os ratos roem o tempo
roem o passado onírico
vitrola, salão de festa

deitado porém insone
ouço os ruídos, roídos
tenho medo de dormir

roem as rótulas da porta
roem as ripas e os ritos



ranhuras no corrimão
rasuras na certidão
rasgos no cimo do oitão



por dentro do casarão
cupins corroem as lembranças
corroem o passado intato
bengala, biblioteca



insone porém deitado
ouço o ranger do portão
tenho medo de acordar



quedam-se vigas e estrados
quedam-se torres e lendas

som de relógio enguiçado
rumor de reza rosário
rumor de riso refrão

por dentro do casarão
traças estraçalham trevas
desvirtuam tradições
alcova, criado-mudo



deitado insone porém
ouço grilos, pirilampos
tenho medo de sonhar



rompe-se a cumeeira
rompe-se a madrugada



rastro parede porão
retrato recordação
correntes e corrosão

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