POEMA DE ABERTURA

  • EIS UMA VERDADE DE PRIMEIRA INSTÂNCIA: A CRIANÇA VIVE EM ESTADO DE POESIA, O POETA VIVE EM ESTADO DE INFÂNCIA. Carlos Vazconcelos

5 de jan de 2012

“Não farás para ti imagem...”

René Magritte, O duplo secreto, 1927
Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus?, perguntaram-me a título de provocação. Tenho minhas dúvidas. Para começar, considero-me agnóstico, e como tal, não formularia jamais “uma” imagem de Deus (física ou não). Não tenho imaginação tão fértil. Somos fragmentos do universo, apenas.

O religioso em geral tende a ser antropocentrista. O homem seria o centro do universo, a criação por excelência, digna da atenção minuciosa e irrestrita do Deus Soberano. “Um cabelo que cai é da responsabilidade de Deus.” E é, se tomarmos Deus como o responsável pelo universo avaliado como um sistema complexo, além da nossa compreensão.

Aderir à ideia da semelhança é como criar um espelho. Olho Deus e me vejo ou olho-me e vejo a Deus. É algo narcisista: minha imagem me seduz.

Isto me faz lembrar Costa Matos, poeta cearense. Quanta profundidade nestes versos tão singelos, aparentemente destituídos de beleza, mas tão aplicáveis ao palco, ao púlpito, ao palanque:

A multidão aclamará
Rei
o homem que se apresentar
vestido de espelhos.

Segundo o filósofo Xenófanes (nascido por volta de 570 a. C.), o homem é que criou Deus (ou os deuses) à sua própria imagem e semelhança.

A religião instituída, dogmatizada é a acomodação das ideias. Diferentemente do filósofo ou do cientista, que está sempre sujeito aos abalos sísmicos da dúvida, o religioso alcançou seu porto seguro, adquiriu respostas para todos os problemas e, pior ainda, não tem mais perguntas a formular. Este mundo já lhe foi contado em miúdos, e o outro também.

O ser humano não nasceu com o dom de compreender todas as coisas, mas tem necessariamente a vocação da procura. Ciência é procura. Filosofia é procura. Arte é procura. Só a religião é que é certeza? Quanto mais buscamos respostas mais encontramos mistérios. Definir é reduzir. Por isso Deus não cabe em definições. Eu só consigo percebê-lo como um ser imenso, incognoscível. Kalhil Gibran sabia disso ao afirmar:

Quando um de vós ama, que não diga: “Deus está no meu coração”, mas que diga antes: “Eu estou no coração de Deus”.

Se fomos criados à imagem e semelhança de Deus, não seria Deus egoísta... e invejoso... e falador da vida alheia... características tão pertinentes a esse espectro chamado homem? Ah, mas me diriam: o homem deturpou-se pelo pecado original. Antigamente, eu acreditava no homem como uma criatura a caminho da luz. Mas hoje em dia não é fácil, se olho os escombros ao redor. Uma coisa é certa, não pretendo recair no velho equívoco, o de apregoar o absoluto, pois quem pensa conhecer a verdade absoluta deve estar absolutamente enganado.

Não consigo conceber um Deus que caiba na palma da minha mão, explicadinho, analisado ou antropomórfico. No entanto, respeito a experiência interior do encontro com Deus, sem o contraponto necessário da decifração, porque aí eu pretensiosamente passaria por semideus. Nada deixa de existir por ser incompreensível, registrou Blaise Pascal.

Einstein, que além de cientista era um humanista, e pôs abaixo a premissa obsoleta de que a ciência se opõe à fé, declarou:

Saber que existe algo insondável, sentir a presença de algo profundamente racional, radiantemente belo, algo que compreendemos apenas de forma rudimentar – esta é a experiência que constitui a atitude genuinamente religiosa. Neste sentido, e neste sentido somente, eu pertenço aos homens profundamente religiosos.

A compreensão de Deus requer acima de tudo humildade, para que não saiamos por aí de dedo em riste, a apontar o argueiro no olho do irmão, porque nesta hora sim, precisaremos de espelho para enxergar a trave transpassada em nosso próprio olho.

Contudo, prefiro dizer que entre a avidez dos filósofos, a exatidão dos cientistas, a convicção dos teólogos, fico com a dúvida do poeta:

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
e sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim, pensar nisso é fechar os olhos,
porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
de todos os filósofos e de todos os poetas.
(Fernando Pessoa)




por Carlos Vazconcelos, março/2006





5 comentários:

Manuel Soares Bulcão Neto disse...

Ótimo, Carlos!

Lembro que as primeiras grandes obras da filosofia ocidental - as pré-socráticas - eram poemas. Como "Da Natureza", de Parmênides.

Abraço,
Manuel Bulcão

Cleody disse...

Acredito que Deus é energia pura, sendo assim unicamente capaz de
qualquer coisa sem intervir no
livre arbítrio humano.

Fernanda Barreto disse...

A religião é um subproduto do medo. Deus foi uma criação humana para suprir sua impotência diante de certos obstáculos, e ao mesmo tempo que dá a ilusão de tirar do homem a culpa de seus erros, é uma denúncia do complexo de inferioridade humano que não consegue se ver como agente de suas conquistas.

Mariah disse...

Se sou semelhança e imagem de Deus então sou Deus! Filho de gato é gatinho. Filho de Deus é Deusinho! Todos que assim se reconheceram foram ( e continuam sendo ) excluído,presos e mortos. Reduziram o homem a PECADOR. Assim eles não merecem as coisas desse mundo. Devem esperar pela sentença pra ver se tem direito as alegrias do outro lado, porque nesse, elas são para poucos e quem chora agora esta investindo no futuro –pos-morte!!! Haaa cumpade... como mentem os poderosos! Como o homem ainda é bôbo... se arrasta na caverna que Platão tanto mostrou e ainda continua mostrando a saída,mas, em quem se deve acreditar? melhor seria não acreditar em ninguem e " se inquietar na busca" junto contigo meu amado escritor. amo seus pensamentos e seu coraçao. estarei passeando sempre por aqui pra ficar inquita e buscar o caminho da luz ao seu lado grande mestre.
maria mariah.

CARLOS VAZCONCELOS disse...

Queridos amigos Bulcão, Cleody Fernanda e Mariah, gratos pela visita.
A cada compartilhamento aprendo com vocês.
Abraços.