POEMA DE ABERTURA

  • EIS UMA VERDADE DE PRIMEIRA INSTÂNCIA: A CRIANÇA VIVE EM ESTADO DE POESIA, O POETA VIVE EM ESTADO DE INFÂNCIA. Carlos Vazconcelos

17 de out de 2013

Ouro Preto: poesia sem balangandãs


por Carlos Vazconcelos

Conheci Mário Alex Rosa na cidade do Rio de Janeiro, em viagem a serviço do Sesc, cujo destino era Paraty e sua famigerada Festa Literária, a FLIP. Do grupo, com representantes de vários estados do Brasil, identifiquei-me de imediato com o Mário, mineiro, de fatídico sobrenome Rosa, o jeito manso de falar, quase inaudível de tanta discrição.
Mário parece carregar uma tristeza ancestral, colhida talvez nas paredes e ruas memoriais da sua São João Del-Rey natal. Mas não deve ser amargura, é apenas a angústia necessária de quem olha de soslaio o espetáculo frenético do mundo. É de outra estirpe a melancolia dos poetas. Em contrapartida a essa “tristeza”, o humor picante de quem não vê a vida apenas pelas órbitas dos olhos. Eu, mais efusivo e falante, entreguei-lhe Os dias roubados (Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2013), romance eu que acabara de tirar do forno. No dia seguinte, no ônibus, já a caminho de Paraty, muito discretamente ele se dirigiu à minha poltrona e me presenteou com o seu livro Ouro Preto (Belo horizonte: Scriptum, 2012). Soube depois que o livro estava na lista dos semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom, um dos mais importantes da atualidade onde também figurava a querida amiga Tércia Montenegro com o seu O tempo em estado sólido (São Paulo: Editora Grua, 2012). Mas acho que não foi ele quem me deu a notícia. Talvez tenha sido o Betinho, seu editor, que também conheci na FLIP, e com quem dividimos poéticos momentos de boemia regados a vinho, cerveja e umas poucas doses de Gabriela, a famosa cachaça da região, a mais doce e sedutora que já bebi. Betinho, sempre irrequieto, vibrava com o livro, manifestando o que poucos editores conseguem: o entusiasmo com a publicação do seu editado.
Ouro Preto é composto por 52 poemas, que qualquer crítico desavisado poderia denominar “minimalistas”, o que soará verdadeiro tão somente se pensarmos na dimensão física, no tamanho, nunca na essência de cada peça literária enfeixada no volume. Por esse ponto de vista, mínima será uma pérola que enjoou de ser concha; mínima será a nota musical que saltou para dentro de uma melodia; mínima será a flor que renunciou da solidão para ser buquê.
A poesia de Mário Alex Rosa jamais será derramada. É centrípeta. Seus poemas convergem para o âmago do ser. Zomba da ordem: “Aqui cada palavra é cadafalso. Por isso enforco versos e métrica. Fico livre de outras forcas.” (p. 35) O poeta Mário se perde e se acha nos casarões de Ouro Preto, se esquiva pela rua Direita, se desvia pela rua da Escadinha, entra na capela do Padre Faria, mas não é a cidade concreta que incansavelmente procura. O eu-lírico está perdido na cidade secular, catando instantâneos: a saia rosa que acorda a manhã, a branca de neve que o poema ocultou, a ponta do xale que entrou na igreja, enovelando o amor.
O poeta “enxerga a noite no dia e o dia na noite”, “como o vidro de gato dos olhos dela”. Como guia, anda perdido por opção e engabela o leitor que busque uma Ouro Preto de pedra. É a Ouro Preto etérea/eterna que o poeta persegue e nos dá: “Não tenho em mim/qualquer outra cidade,/senão a tua, que me atravessa/feito espada na bainha./Entro nela por dentro/e aceito o medo de sabê-la por fora.” (p. 58)
No itinerário de Ouro Preto nos desencontramos do amor para tropeçarmos com ele logo na próxima esquina, entre o sagrado e o profano: “Já não posso me ater a esse lugar/onde a palavra amor estancou/entre o beco e a igreja.” (p. 57)
O leitor tenta seguir o poeta pelas calçadas da vetusta cidade, mas o poeta está pedido de amor. “Uma ponte é o encontro de duas pontas. Eu continuo num extremo delas.” (p. 13) Aliás, o amor é um personagem irrequieto que perambula em Ouro Preto à procura de pretextos. E isso é tudo o que o poeta deseja. E se consola na solidão dos versos: “Deixe o amor ausentar-se:/Fagulha, do pedaço de unha/Que feriu a imperfeição./Recolha-se nos seus escritos./Fique assim a ver navios./O amor não tolera quem compreende./Mata antes de morrer./Se viver, peça a sua dor de volta.”
Ouro Preto é uma mulher misteriosa que dorme quando o poeta acorda. “Aprendi mais uma vez na falta.” (p. 26)
A voz baixa e contida de Mário Alex é altissonante em versos. E só corresponde ao ouvido quando dita plenamente em oração: “Sempre quis ler para você/o poema ‘São Francisco de Assis’./Era para lhe dizer que a crença na arte /é uma forma de crer na mão humana./Mas você rezava por nós /imersa em tanto silêncio, que naquele momento pensei escutar /que Deus acordaria o mundo./Perdão por acreditar no seu amor.”
Nosso poeta não apenas canta Ouro Preto, ele a encanta. Cantar uma cidade em versos é povoá-la de ausências, porque o que vale mesmo é a procura. Assim como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga, o leitor vai nos encalços da poesia em busca de sua Nise inacessível, de sua Marília inatingível, de uma musa ausente (ou seria onipresente?) que se esconde em algum canto da cidade inesquecida. Parece dialogar com Drummond: “São palavras no chão/e memória nos autos./As casas inda restam,/os amores, mais não.”
O livro diz muito com seus silêncios e hiatos e cada palavra tem dois gumes: um de nuvem outro de abismo. “É preciso rezar com raiva.” (p. 44). Ouro Preto é a própria matéria da poesia; não se encontra ali balangandãs.



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