POEMA DE ABERTURA

  • EIS UMA VERDADE DE PRIMEIRA INSTÂNCIA: A CRIANÇA VIVE EM ESTADO DE POESIA, O POETA VIVE EM ESTADO DE INFÂNCIA. Carlos Vazconcelos

2 de nov. de 2013

MARÍLIA ARNAUD, PEDRO SALGUEIRO E RINALDO DE FERNANDES COMENTAM O LIVRO "OS DIAS ROUBADOS", DE CARLOS VAZCONCELOS.



"O complexo narrador-autor desta obra instigante vai — trazendo sempre junto o leitor — construindo (ou seria desconstruindo?) suas prisões exteriores e, principalmente, interiores. Texto de fôlego do contista de Mundo dos Vivos, que, pouco a pouco, pedra a pedra, vai fincando seu nome neste solo tão árido da Literatura Cearense."
PEDRO SALGUEIRO

"O romance de Carlos Vazconcelos é agudo na temática e bem elaborado na forma, com uma técnica inventiva. No final é que é revelado, por meio de um “posfácio” produzido por um dos organizadores do volume, que a narrativa que lemos (fragmentada, e o recurso soa perfeito, por conta do arranjo que foi possível ser montado pelos organizadores do material recolhido) se trata na verdade da autobiografia do protagonista, que, na prisão, e fazendo de tudo para preservar seus papéis, seus manuscritos, tornara-se escritor. Tornara-se escritor para denunciar a injustiça que o fez padecer durante quinze anos – e que, liberto, não o recompôs como indivíduo, fraturou de vez sua identidade."
RINALDO DE FERNANDES

"Carlos Vazconcelos, grata pelo arrebatamento que você me proporcionou com o seu OS DIAS ROUBADOS, que li duas vezes (a primeira em algumas horas; a segunda, pausadamente, em pequenos bocados). O narrador e protagonista sem nome é um homem que, tendo passado quinze anos atrás das grades por um crime que não cometeu, desaprendeu seu lugar no mundo. Assombrado pelo passado, destila sua angústia existencial em escritos que o transformarão em celebridade. Realidade e fantasia, sonhos e lembranças misturam-se vertiginosamente no relato desse homem que, privado da voz, faz da palavra sua vingança. Um texto vigoroso e sofisticado, que revela um escritor dotado de sensibilidade e consciência literária. Um escritor em sua plenitude. Aceite meu encantamento."
MARILIA ARNAUD

17 de out. de 2013

Ouro Preto: poesia sem balangandãs


por Carlos Vazconcelos

Conheci Mário Alex Rosa na cidade do Rio de Janeiro, em viagem a serviço do Sesc, cujo destino era Paraty e sua famigerada Festa Literária, a FLIP. Do grupo, com representantes de vários estados do Brasil, identifiquei-me de imediato com o Mário, mineiro, de fatídico sobrenome Rosa, o jeito manso de falar, quase inaudível de tanta discrição.
Mário parece carregar uma tristeza ancestral, colhida talvez nas paredes e ruas memoriais da sua São João Del-Rey natal. Mas não deve ser amargura, é apenas a angústia necessária de quem olha de soslaio o espetáculo frenético do mundo. É de outra estirpe a melancolia dos poetas. Em contrapartida a essa “tristeza”, o humor picante de quem não vê a vida apenas pelas órbitas dos olhos. Eu, mais efusivo e falante, entreguei-lhe Os dias roubados (Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2013), romance eu que acabara de tirar do forno. No dia seguinte, no ônibus, já a caminho de Paraty, muito discretamente ele se dirigiu à minha poltrona e me presenteou com o seu livro Ouro Preto (Belo horizonte: Scriptum, 2012). Soube depois que o livro estava na lista dos semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom, um dos mais importantes da atualidade onde também figurava a querida amiga Tércia Montenegro com o seu O tempo em estado sólido (São Paulo: Editora Grua, 2012). Mas acho que não foi ele quem me deu a notícia. Talvez tenha sido o Betinho, seu editor, que também conheci na FLIP, e com quem dividimos poéticos momentos de boemia regados a vinho, cerveja e umas poucas doses de Gabriela, a famosa cachaça da região, a mais doce e sedutora que já bebi. Betinho, sempre irrequieto, vibrava com o livro, manifestando o que poucos editores conseguem: o entusiasmo com a publicação do seu editado.
Ouro Preto é composto por 52 poemas, que qualquer crítico desavisado poderia denominar “minimalistas”, o que soará verdadeiro tão somente se pensarmos na dimensão física, no tamanho, nunca na essência de cada peça literária enfeixada no volume. Por esse ponto de vista, mínima será uma pérola que enjoou de ser concha; mínima será a nota musical que saltou para dentro de uma melodia; mínima será a flor que renunciou da solidão para ser buquê.
A poesia de Mário Alex Rosa jamais será derramada. É centrípeta. Seus poemas convergem para o âmago do ser. Zomba da ordem: “Aqui cada palavra é cadafalso. Por isso enforco versos e métrica. Fico livre de outras forcas.” (p. 35) O poeta Mário se perde e se acha nos casarões de Ouro Preto, se esquiva pela rua Direita, se desvia pela rua da Escadinha, entra na capela do Padre Faria, mas não é a cidade concreta que incansavelmente procura. O eu-lírico está perdido na cidade secular, catando instantâneos: a saia rosa que acorda a manhã, a branca de neve que o poema ocultou, a ponta do xale que entrou na igreja, enovelando o amor.
O poeta “enxerga a noite no dia e o dia na noite”, “como o vidro de gato dos olhos dela”. Como guia, anda perdido por opção e engabela o leitor que busque uma Ouro Preto de pedra. É a Ouro Preto etérea/eterna que o poeta persegue e nos dá: “Não tenho em mim/qualquer outra cidade,/senão a tua, que me atravessa/feito espada na bainha./Entro nela por dentro/e aceito o medo de sabê-la por fora.” (p. 58)
No itinerário de Ouro Preto nos desencontramos do amor para tropeçarmos com ele logo na próxima esquina, entre o sagrado e o profano: “Já não posso me ater a esse lugar/onde a palavra amor estancou/entre o beco e a igreja.” (p. 57)
O leitor tenta seguir o poeta pelas calçadas da vetusta cidade, mas o poeta está pedido de amor. “Uma ponte é o encontro de duas pontas. Eu continuo num extremo delas.” (p. 13) Aliás, o amor é um personagem irrequieto que perambula em Ouro Preto à procura de pretextos. E isso é tudo o que o poeta deseja. E se consola na solidão dos versos: “Deixe o amor ausentar-se:/Fagulha, do pedaço de unha/Que feriu a imperfeição./Recolha-se nos seus escritos./Fique assim a ver navios./O amor não tolera quem compreende./Mata antes de morrer./Se viver, peça a sua dor de volta.”
Ouro Preto é uma mulher misteriosa que dorme quando o poeta acorda. “Aprendi mais uma vez na falta.” (p. 26)
A voz baixa e contida de Mário Alex é altissonante em versos. E só corresponde ao ouvido quando dita plenamente em oração: “Sempre quis ler para você/o poema ‘São Francisco de Assis’./Era para lhe dizer que a crença na arte /é uma forma de crer na mão humana./Mas você rezava por nós /imersa em tanto silêncio, que naquele momento pensei escutar /que Deus acordaria o mundo./Perdão por acreditar no seu amor.”
Nosso poeta não apenas canta Ouro Preto, ele a encanta. Cantar uma cidade em versos é povoá-la de ausências, porque o que vale mesmo é a procura. Assim como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga, o leitor vai nos encalços da poesia em busca de sua Nise inacessível, de sua Marília inatingível, de uma musa ausente (ou seria onipresente?) que se esconde em algum canto da cidade inesquecida. Parece dialogar com Drummond: “São palavras no chão/e memória nos autos./As casas inda restam,/os amores, mais não.”
O livro diz muito com seus silêncios e hiatos e cada palavra tem dois gumes: um de nuvem outro de abismo. “É preciso rezar com raiva.” (p. 44). Ouro Preto é a própria matéria da poesia; não se encontra ali balangandãs.



2 de mar. de 2013

MAPA DE ERRÂNCIAS 3




Estou quase concluindo a leitura de O óbvio ululante, crônicas memorialísticas de Nelson Rodrigues. O velho escriba era um gozador. Tinha o poder de desnudar o lado mais torpe da alma humano. Poucos, na literatura brasileira, além de Machado de Assis, o conseguiram de maneira translúcida. Implicava com alguns vultos da época, e quando isso acontecia, era desassossego para a “vítima”, que virava personagem das crônicas semanais. Implicava, por exemplo, com D. Hélder (a personalidade mais citada no livro: 38 vezes), com Alceu Amoroso Lima e outros católicos. Incomodava-se com os doutrinadores, os moralistas, os seres cheios de certeza. Como não via possibilidade de perfeição no ser humano, observava as atitudes dos “homens de boa vontade” com desconfiança e sempre ávido por encontrar goteiras no telhado. Percebe-se frustração quando não as encontra. As referências a João Guimarães Rosa são impagáveis (com a licença da expressão clichê). São passagens em que Nelson dá uma perfeita amostragem de suas próprias contradições, temperadas sempre com  fina ironia e tamanho cinismo. Nunca poupou críticas à “esquerda” brasileira, o que lhe rendeu o rótulo de reacionário. Em Nelson, percebe-se nitidamente a diferença entre o homem e o criador. O segundo não aceitava amarras e apresentava a vida como ela é. O primeiro tinha moral própria, de homem comum, com seus medos, dúvidas e tabus. Só não aceitava doutrinadores. É o rei da frase de efeito, criadas sempre som muita perspicácia. Podemos surpreendê-lo sentimental: “A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real.” Romântico: “Nasceu comigo o horror de trair. Eu queria ser fiel e que todos fossem fiéis. Amar a mesma, sempre. (...) A minha mais doce utopia era morrer como ser amado.” Reacionário (e atual): “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.” “Canalha” e “pulha” são palavras recorrentes, de sua preferência, quase uma marca. Narra inclusive o episódio em que escutou pela primeira vez a palavra “canalha”. Não apenas a palavra “canalha”, mas os próprios “canalhas” o fascinavam. E já que o assunto é memória, também tenho as minhas. Lembro que na minha cidade também havia um menino precoce que cedo logo ganhou o apelido de “Canalha”. Ele fazia pose de canalha, e quando tentava disfarçar a alcunha, bancar o homem sério, mais canalha se tornava. Ainda vou descobrir quem batizou o Canalha de canalha. E fico a me perguntar: Já existia em Tianguá algum leitor de Nelson Rodrigues? 

15 de fev. de 2013

À GUISA DE CARTA ou A FOTOSSÍNTESE POÉTICA



Fortaleza, Carnaval de 2013

Carlos Nóbrega, nobre Xará,

Seu novo livro, Lápis branco, já me conquistou lugar na estante. Lá não estará sozinho, mas em família. Tem por companhia toda a irmandade: A sono solto, Outros poemas, Breviário, Árvore de manivelas, O quanto sou e 8Verbetes. Nessa prateleira só mora gente de ótima estirpe: Carlos Drummond (o outro xará), Manuel Bandeira e Manoel de Barros, João Cabral, Mário Quintana e Augusto dos Anjos. Não precisa se encabular, que ali também residem dois conterrâneos: Francisco Carvalho (com seus títulos e “tons e dons geniais”) e O Poeta de Meia-Tigela (com seu concerto desconcertante de tão bom). Nesse momento, assim se resume minha prateleira principal de poetas do Brasil.
Com Lápis branco você reafirma esse lirismo carregadinho de reflexões próprio de sua estética e do seu estar no mundo. Como Manoel de Barros, você sabe arqueologicamente escovar as palavras para descobrir que ecos ainda guardam. Feito isso, reveste-as de brilho novo e, mesmo sem se esforçar para expô-las na vitrine, elas reluzem e aliciam o leitor, apenas aqueles que “sofrem” de fotossíntese. Explico: Aprendi erradamente na escola que a fotossíntese é um fenômeno exclusivamente vegetal. Mas hoje compreendo: minha professora de Ciências não tinha o hábito de ler poesia. Eu a perdoo. É feito padre: ensina a casar, mas não casa nunca. Sofrer de fotossíntese é ter a lua por companheira de viagem; é entrar naquela casinha sem número (a avozinha da rua) que distribui humanidade, e tomar um café com pão; é ajeitar a alma dentro da blusa e sair à cata de versos no bulício da cidade grande; é entender o estranho e delicioso esperanto das mulheres; é saber esperar na fila da padaria e da vida e nesse intervalo ser distraído pela poesia; é achar fatigante a ideia de desaparecer (inevitavelmente) um dia para sempre; é ser encontrado morto dentro dos olhos vivos da amada; é andar sozinho em procissão contando os passos entre um poste e outro (feito aquele personagem de Orígenes Lessa), é não ligar se pousem moscas ou olhares sobre a felicidade de fiar poemas. Enfim, é escrever com lápis branco sobre papel branco para que só captem a mensagem aqueles indivíduos “clorofilados”, os que sofrem de fotossíntese poética.
Afinal, não foi Mário Quintana que disse que “cada poema é uma garrafa de náufrago... quem a encontrar, salva-se a si mesmo?”
Sei que você não acredita que a poesia possa salvar alguém, mas que ajuda a não doer, ah, disso nós temos certeza.

Abraço do Carlos Vazconcelos.

8 de fev. de 2013

MAPA DE ERRÂNCIAS 2


Esta semana, li na revista Época que o uso excessivo de aspirina causa cegueira (informação dada a partir de estudos recentes). Lembrei-me logo do poeta João Cabral de Mello Neto, que ingeriu esse tipo de comprimido por quase 50 anos. Consumiu cerca de 70 mil aspirinas (de acordo com José Castello). Era tão dependente que escreveu o poema "Num monumento à aspirina", publicado no livro A educação pela pedra. Acho que foi o único poeta no mundo que dedicou versos a um remédio. Compara-o a um "sol artificial" que "a toda hora em que se necessita dele/levanta e vem (sempre num claro dia)/acende, para secar a aniagem da alma/quará-la, em linhos de um meio-dia."

Explica-se esse "amor". O poeta padecia de dor de cabeça crônica desde os 16 anos, cuja causa nunca fora diagnosticada. Curou-se somente em 1986, após cirurgia no estômago. Certa vez, em entrevista à Folha de São Paulo, reiterou: "Eu a comparo a um sol. Depois eu soube que a aspirina é euforizante. Tenho a impressão de que essa minha depressão de hoje é falta de aspirina. Resolvi tomar uma por dia - tomava seis -, mas, como não tenho mais dor de cabeça, eu esqueço." Perguntado em seguida se rejeitava drogas no momento da criação, respondeu: "Ah, sim. Quero escrever sempre em plena consciência." João Cabral morreu em 1999, com avançada cegueira e muita melancolia.

6 de fev. de 2013

MAPA DE ERRÂNCIAS 1


Recebi, por esses dias, livros dos conterrâneos Nilto Maciel (Menos vivi do que fiei palavras) e Carlos Nóbrega (Lápis branco). Ambas as obras publicadas pela editora Penalux, de São Paulo (selo Castiçal, para prosa; selo Candeeiro, para poemas). Edições caprichadas. Nilto Maciel trouxe a lume elucubrações literárias anotadas no tempo em que morou em Brasília. Delicio-me com textos dessa natureza. Revelam e disfarçam idiossincrasias. Gostei de tê-lo recebido. Carlos Nóbrega, meu nobre xará, segue afiado em seus minipoemas. Lírico, existencialista e observador microscópico dos detalhes da vida, continua sendo o meu poeta predileto, juntamente com Drummond, Bandeira, João Cabral, Francisco Carvalho, Quintana e Manoel de Barros. 

11 de jun. de 2012

SILÊNCIOS E VOZES DE FRANCISCO CARVALHO, POETA DE CONCHA E RUMOR*



Uma ode em prosa ao poeta que, ao anunciar a falta de sentido da poesia, luta pela utopia da palavra

Carlos Vazconcelos
ESPECIAL PARA O POVO (10/6/12)
Nem poeta municipal nem poeta federal, poeta de Língua Portuguesa, desses que elevam a expressão poética da flor do Lácio ad infinitum. Em um mundo globalizado, que transformou tempo em ouro, sexo em luxo e liberdade em utopia, a humanidade necessita de poetas que lutem contra a pedra no caminho, que sonhem com Pasárgada, que cantem porque o momento existe; poetas que mirem as coisas mínimas, pois quem não há de desconfiar que não existem coisas máximas, exceto o respirar tão frágil e o fechar dos olhos tão miúdo depois da cortina da noite?
Que acontece quando silêncios e vozes se entretecem? A poesia. E se o poeta é da estatura de Francisco Carvalho? A celebração. O que leva um teatro inteiro a declamar versos? O êxtase. Nos dias 21 e 22 de maio, no IV Seminário SESC Revelando a Literatura Cearense, celebramos os silêncios e vozes do poeta Francisco Carvalho. Instigamos e vimos o teatro inteiro declamando poesia, vozes de todas as idades e tons, a ala de cima, a ala de baixo, alunos, professores, escritores, leitores e simpatizantes, todos repetiram, como em oração, a “Canção do Irmão”: “Alguém tem de celebrar a paz/ pelos que pelejam/ Alguém tem de assumir a infância/ pelos que não sonham/ Alguém tem de rezar um salmo/ pelos que morreram/ Alguém tem de escrever um verso/ pelos que não amam”.
Francisco de franciscana vaidade e fortuna crítica estelar. Que alguém ainda não diga que poesia não se põe no púlpito. Repitamos com Carvalho esse paradoxo: “Fazer um poema não é dizer coisas profundas. É ver as coisas como as coisas não são”. É nessa gratuidade que reside todo o legado da poesia, desde Homero, desde Dante, desde o primeiro fiat lux. Poeta silencioso em seu estar no mundo, Carvalho atinge plena eloquência na sua poética, pois composta de vozes e de silêncios, aqueles silêncios de ouro, que valorizam as palavras. Silêncios a la Mallarmé, que dão voz aos anjos, que dão alma aos objetos.
Poética que decanta o fracasso da palavra enquanto sublima a língua: “A aranha não tece em vão/ sua secreta parábola/ em vão gastamos o ferro/ o ouro da nossa fala.” Poética que discorre sobre a inutilidade da poesia enquanto pratica sua essência: “O sentido da poesia é não ter sentido algum”. Poética que consagra o abismo enquanto constrói a ponte: “Alguns me lembram que ainda/ existe a possibilidade do amor./ Mas o amor não é uma saída/ o amor é um mergulho.” Poética que desromantiza o poema para altear a voz contra o sistema: “Quebra o teu alaúde de poeta romântico/ quebra o cristal dos teus desvarios/ e vai semear esperança nas favelas/ de pés descalços e olhos vazios”.
Poesia que esvoaça como o vento mas é sólida como a pedra, que esmiúça o cotidiano mas flerta com o metafísico, que se nutre com o erudito mas desabotoa o fardão, que decifra a esfinge mas elabora o próprio enigma. Adolfo Casais Monteiro parecia falar de Carvalho quando escreveu que “o artista-poeta é aquele que do fundo dos seus abismos e do alto dos seus céus nos comunica a expressão da sua essencialidade humana”. A poesia de Francisco Carvalho diz muito quando emudece e às vezes é impactante como as sentenças do Velho Testamento: “Perde teu olho/ mas não perde a tua liberdade”.
Nobre poeta de carvalho e nuvem, que floresce a cada livro para ofertar a todos o imenso banquete da poesia. Nos seus oitenta e cinco anos, celebraremos os séculos que se derramarão sob o porvir dos teus poemas. Nessa pastoral dos dias maduros, sob a rosa dos minutos que se alongam, repetiremos com você que “ser poeta é repartir o pão com os humilhados e ofendidos, ser poeta é fingir que o sonho é real e acreditar que a pedra pode se transformar em pássaro”.
Carlos Vazconcelos, escritor e mestrando em Literatura pela Universidade Federal do Ceará.

*Título original não incluído na publicação.

15 de mar. de 2012

AO POETA FERNANDO CÂNCIO, EM SEUS 90 ANOS DE VIDA

ONTEM, 14 DE MARÇO, DIA DA POESIA, FOI TAMBÉM ANIVERSÁRIO DO POETA FERNANDO CÂNCIO, UM GRANDE AMIGO, UM EXEMPLO DE SER HUMANO, UM JOVEM DE 90 ANOS. A ELE DEDIQUEI ESTE POEMA, EM NOME DE TODOS OS COMPANHEIROS DA CEIA LITERÁRIA:


por Carlos Vazconcelos


Hoje trago versos

No meu matulão

Trago uma oferenda

Modinha e canção

Fiz uma comenda

E andei compondo

Pastoral, parlenda

Para o seu Fernando



Hoje trago versos

No meu embornal

Madrigal, balada

Trovas e um luau

E uma embolada

Que vim preparando

Por toda a estrada

Para o seu Fernando



Hoje trago versos

Na minha algibeira

Trago um pôr-do-sol

Trago uma roseira

E um rouxinol

Que já vem cantando

Desde o arrebol

Para o seu Fernando



Hoje trago versos

Dentro de um grajau

Marchinha, cantata

Velho carnaval

E uma serenata

Com todos tocando

Com viola e flauta

Para o seu Fernando


Hoje trago versos

No meu caçuá

Balaio de imagem

Alforge e patuá

Rimas na bagagem

Que vou ofertando

Como homenagem

Para o seu Fernando



27 de jan. de 2012

LEITORES


Esta semana ganhei alguns presentes feitos de palavras. E dos mais comoventes e gratificantes foram os que abaixo transcrevo:

Mundo dos Vivos
(Autor: Silas Façanha)

No livro, nos textos
Um lugar de conflitos
Os mais perversos segredos
O mundo dos vivos

Livro crônica
Com vários elos
Na escrita harmônica
De Carlos Roberto Vazconcelos

Demonstra nos textos
Com um jeito profundo
O amor, o terror
No nosso mundo

Parabéns pelo livro
Parabéns pelo trabalho
Sinceramente eu digo:
Estou encantado
___________________________
“Prezado Carlos Roberto: acabo de ler embevecido o livro de sua autoria Mundo dos Vivos/contos. De quando em quando, sou surpreendido aqui no Ceará pelo lançamento de obras literárias do mais elevado nível. A ponto de levarem a esta reflexão – a de que se tais textos fossem publicados por exemplo em São Paulo, por editora de prestígio, os autores se afirmariam como nomes nacionais: o caso de um Marcos Frota. Agora, o caso desse Amigo. Sua obra nasceu da convergência do sociólogo, do psicólogo e do mestre no domínio da palavra, surgindo dessa liga livro realmente fascinante. Vá em frente. Continue administrando o talento, em vez de, como aquela figura bíblica, enterrá-lo; antes, pondo-o a serviço dos leitores, expressão tangível da sociedade. Parafraseando João Paulo II, sobre todo talento pesa uma hipoteca social.

Cordialmente, Pádua Ramos”*
___________________
O poema é do pequeno-grande Silas Façanha, depois de atenta leitura do livro Mundo dos vivos.


Silas Façanha é um garoto de 12 anos, ávido leitor e contumaz operário das letras, que passou a frequentar recentemente o Abraço Literário. Esse menino vai longe, pois escreve, recita e cultiva uma paixão espontânea pela Literatura. Viajou conosco para Ipu (sob responsabilidade dos pais), quando participou do I Encontro Cearense de Escritores, promovido pelo SESC, AILCA e ACE. Assistiu ponderadamente a todas as palestras, recitou versos e deu depoimento. Dentro do ônibus, já de volta, pedi que criasse coragem e lesse para mim o poema inspirado no livro.

O outro regalo veio da parte do Dr. Pádua Ramos, com quem trabalhei de Redator na FIEC pelos idos da década de 1990. Entreguei-lhe o livro há cerca de 2 anos, quando o encontrei na rua. Que grata surpresa a minha quando recebi um telefonema e depois um e-mail com algumas considerações sobre o livro Mundo dos vivos. No momento da ligação, não nos lembrávamos um do outro. Com o decorrer da conversa, foi mais grata ainda a surpresa quando descobri que aquele que se dava ao trabalho de me ligar para comentar meu livro era o Sr. Pádua Ramos, uma das pessoas mais importantes na minha trajetória de vida, grande leitor, dessas pessoas que a gente não esquece pela força do caráter, da inteligência e da cordialidade.

As palavras que ora compartilho neste blogue (e peço desde já a licença de ambos os amigos) me deixam feliz e, por outro lado, só reiteram meu compromisso com a Literatura e com o ato de escrever, hábito que me acompanha desde tenra idade. Não vai aqui nenhuma afetação, apenas um contentamento pessoal e, por oportuno, minha justa homenagem aos dois companheiros de jornada terrena.

*Professor da UECE, ex-Superintendente Geral da FIEC, ex-Secretário do Planejamento (Ceará e Piauí).

20 de jan. de 2012

ERA UMA VEZ NO OESTE

O diretor Sérgio Leone, o rude olhar de Charles Bronson, a beleza estonteante de Claudia Cardinale

Por Carlos Vazconcelos

Três sujeitos carrancudos se apossam da erma estação de Flagstone. Há um encontro marcado. A espera se desenrola por longos catorze minutos em que se ouve uma sinfonia de sons triviais, espécie de trilha sonora a embalar o tédio dos intrusos: o moinho a ranger com lentidão, uma goteira sobre o chapéu, o estalar de dedos, o zumbido intermitente de uma mosca.


Quando o trem estaciona não desce ninguém. A parada é rápida e o apito ecoa novamente anunciando a despedida do cavalo de ferro. Os três comparsas ensaiam dar meia-volta, mas param perplexos ao escutarem um som de gaita. Essa toada sempre prenunciará o tom soturno da morte. Por trás da gaita um homem de olhar lancinante.


“Trouxe um cavalo para mim?”


(Risos) “Parece que falta um cavalo.”


“Não. Trouxeram dois a mais."


Assim começa o maior faroeste de todos os tempos, capaz de deleitar qualquer espectador: Era uma vez no Oeste, dirigido por Sérgio Leone, com música de Ennio Morricone, estrelado por Henry Fonda, Charles Bronson, Cláudia Cardinale e Jason Robards. Filme silencioso, com poucos mas inteligentes diálogos. Não há palavrórios nem tiros ao vento. Toda bala deverá ter um endereço. Os closes das fisionomias e a amplitude das belas paisagens se alternam, mostrando que tanto nos escaninhos das faces quanto nas sinuosidades dos caminhos estão escritas muitas histórias.


No final dos anos 1960, o gênero faroeste entrava em decadência. Leone estourara as bilheterias com o sucesso do chamado Cinema Spaghetti, principalmente na famosa Trilogia dos Dólares: Por um punhado de dólares, Por uns dólares a mais e Três homens em conflito (ou O bom, o mau e o feio), que revelara o grande Clint Eastwood (“Eu gosto de Clint Eastwood porque ele só tem duas expressões faciais: uma com o chapéu e outra sem ele.” – brincou certa vez Sérgio Leone). O diretor italiano preparava seu novo e ambicioso projeto. Tratava-se de Era uma vez na América, saga italiana sobre a máfia, outra obra-prima do cinema italiano. Mas a Paramont fez uma imposição: só arcaria com os custos do novo filme de Leone se este prometesse que produziria antes outro faroeste. Leone aceitou e provou que uma obra-prima pode ser realizada sob encomenda, sem prejuízo para a arte. Era uma vez no Oeste é de 1968. Era uma vez na América ficou congelado até 1984. Leone sempre quis provar que o gênero faroeste não é apenas entretenimento.


Os quatro atores principais estão impecáveis em seus papéis e cada um singulariza com traços fortes seu personagem. Henry Fonda é o inescrupuloso bandido Frank. Até então, Fonda só interpretara mocinhos, e esta é uma das surpresas do filme. Seu primeiro close é de perfil. Fã nenhum poderia acreditar. O surpreendente Leone faz girar a câmera e revela para o espectador (sem dúvida extasiado) os olhos azuis de Fonda, a boca cheia de fumo, um meio sorriso cínico. Isso depois de haver exterminado uma família inteira, inclusive o pequeno Timmy, que saiu do casarão assustado com a chacina, mas não poderia permanecer vivo porque um dos comparsas deu com a língua nos dentes:


“O que vamos fazer com ele, Frank?”


“Já que falou meu nome...” (Uma cusparada e... bangue!)


Tudo isso sob uma bonita e angustiante melodia de Morricone.


Charles Bronson é o mais misterioso dos personagens. Aparece na sombra e maneja dois instrumentos com igual frieza e talento: uma gaita e uma colt. É descendente de índios, impassível como uma pedra e passa a ser chamado “O Gaita” (ou “Harmônica”, e cuja interpretação inicialmente deveria ser de Clint Eastwood).


Jason Robards interpreta Cheyenne, tipo de vilão romântico, e faz contraponto com a solidez inarredável do Gaita. Entra na briga quando descobre que a quadrilha do impiedoso Frank está cometendo atrocidades e espalhando vestígios falsos, para culpar seu bando e pôr a polícia nos seus encalços.


Cláudia Cardinale é a bela prostituta Jill, que resolve sair do luxo de Nova Orleans para se casar com McBain, um visionário irlandês, homem bem-intencionado, cuja mente viaja mais depressa do que o progresso e projeta no futuro sua fortuna. Pela primeira vez, num faroeste, Leone dá relevo a uma personagem feminina, peça fundamental no conflito. Movidos por interesses distintos, Cheyenne e Gaita “assinam” um acordo tácito para destruir a vilania de Frank e sua tenebrosa malta. Frank “trabalha” para Morton (Gabriele Ferzetti), um homem ganancioso, que mal consegue se manter de pé devido a uma doença nos ossos, e habita um luxuoso vagão de trem. Mas Frank é muito orgulhoso para receber ordens de um “patrão” aleijado.


Era uma vez no Oeste é o resultado da união primorosa entre direção, atuação, trilha sonora e fotografia. Simplesmente uma aula de narrativa. A cena do duelo final, entrecortada por flashbacks reveladores, com tempo retardado para alimentar o suspense, é notável. Aliás, o duelo tem dupla conotação, pois há simultaneamente ao movimento dos corpos o confronto dos olhares, num jogo de câmeras que permitem closes extremos, exacerbados, como nunca se viu na história do cinema.


Com esta película, Sérgio Leone faz citações intencionais e presta homenagem a outros grandes filmes e diretores: Rastros de ódio e O cavalo de ferro (John Ford), Matar ou morrer (Fred Zinnemann), John Guitar (Nicholas Ray), etc. O filme é um nostálgico aceno de adeus, ao gênero, aos durões, a uma maneira de se produzir cinema, como o faria mais tarde, bem mais tarde, Clint Eastwood com Os imperdoáveis.


Se o filme é “uma dança da morte”, nas palavras do próprio Sérgio Leone, a dança dura, em sua versão completa, quase três horas (Por falar em morte, uma curiosidade: Al Mulock, que interpretou um dos três pistoleiros da cena inicial, suicida-se no set de filmagem).


Obrigatório até para quem pensa que não curte o gênero bangue-bangue, pois ninguém resiste a uma narrativa bem contada. Mas talvez fique a pergunta: e não há nada que o desabone? Como, se tudo no filme é eloquente, épico, grandioso, até mesmo (ou principalmente) os pormenores?

12 de jan. de 2012

LIÇÃO DE LIBERDADE


por Carlos Vazconcelos


Um amigo me contou que seu pai, ao vir passar uns dias com ele na capital, comentou mais ou menos assim: “Meu filho, eu não gosto daqui porque a vista da gente termina cedo, bate num muro, ou numa casa, parece que quer voltar pra dentro dos olhos. No interior não, tudo é a perder de vista!” O interior de que ele fala é propriamente o campo, nicho primitivo do homem, onde terra e céu parecem dar as mãos, onde as retinas não encontram obstáculos para a sua liberdade.

E foi pensando em liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que a explique, e ninguém que não entenda, como disse Cecília Meireles, que compreendi perfeitamente a queixa do pai do meu amigo. A liberdade começa pela vista, ou melhor, pelo alcance da vista. É por isso que amamos o mar. Mar é sinônimo de liberdade, é antítese de limite. Uma vez à beira-mar, já nos sentimos viajantes. O segredo é levantar os olhos. Antigos marinheiros, mui amantes da liberdade, inconformados com o infinito, achando pouco o imensurável, atiraram-se por oceanos nunca dantes navegados e foram além da Taprobana ou do Bojador. Para eles, liberdade e felicidade eram mais do que uma rima. Estava criada a expressão além-mar.

Comparo cidade sem mar com casa sem quintal. Limita os movimentos, suscita a claustrofobia. Toda cidade deveria possuir pelo menos muitas praças e, se possível, um bosque. Tudo isso traduzido chama-se liberdade, muito embora liberdade não seja apenas isso.

Nas décadas de 1960 e 1970, filmes de faroeste faziam grande sucesso. Homens montados em cavalos viviam as mais bravas aventuras, soltos pelas pradarias, montanhas e vales, sempre a divisar um rio valente ou uma planície sem fim.

Por que razão tais películas exerciam tão mágico efeito sobre os espectadores? Acredito que um dos motivos era exatamente a tal liberdade. Já observaram como a paisagem do Velho Oeste é ampla? Quem não gostaria de estar na pele do herói, solitário ou não, a varar o mundo sem preocupação com horário, tempo bom ou ruim? Mesmo sabendo que nem tudo é bonança na vida do caubói, o público se identifica com a sua liberdade. O caubói é o sujeito mais livre do mundo e só tem na vida três compromissos: manter-se vivo, municiar sua arma e alimentar seu cavalo. O resto vem de sobeja: algumas belas mulheres, o frescor do riacho de águas límpidas, um novo sol a cada dia e, principalmente, a paisagem infinita a perder de vista.

Já escafandristas e astronautas não me remetem à liberdade. São monitorados, controlados, assistidos e dependem de indumentária complicada. Para respirar necessitam de aparelhos de oxigênio e de alguém que os controle. Na maioria das vezes sua paisagem é monótona e seus movimentos restritos. Não, definitivamente, isso não é liberdade. Só a paisagem a perder de vista faz a alma se encontrar.

O homem constrói sacadas, torres e mirantes, inventou binóculos e lunetas, porque entende que a liberdade entra pelos olhos. Decerto descobrirá também que ela só frutifica quando semeada no solo da alma. Quando todo homem aprender essa lição de liberdade, poderá subir aos píncaros dos Andes (como diria Castro Alves) e repetir com Chaplin estas palavras do discurso final de O Grande Ditador:

Levanta os olhos, Hannah! A alma do homem recebeu asas e finalmente começou a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Levanta os olhos, Hannah! Levanta os olhos!

Fortaleza, 2006

5 de jan. de 2012

“Não farás para ti imagem...”

René Magritte, O duplo secreto, 1927
Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus?, perguntaram-me a título de provocação. Tenho minhas dúvidas. Para começar, considero-me agnóstico, e como tal, não formularia jamais “uma” imagem de Deus (física ou não). Não tenho imaginação tão fértil. Somos fragmentos do universo, apenas.

O religioso em geral tende a ser antropocentrista. O homem seria o centro do universo, a criação por excelência, digna da atenção minuciosa e irrestrita do Deus Soberano. “Um cabelo que cai é da responsabilidade de Deus.” E é, se tomarmos Deus como o responsável pelo universo avaliado como um sistema complexo, além da nossa compreensão.

Aderir à ideia da semelhança é como criar um espelho. Olho Deus e me vejo ou olho-me e vejo a Deus. É algo narcisista: minha imagem me seduz.

Isto me faz lembrar Costa Matos, poeta cearense. Quanta profundidade nestes versos tão singelos, aparentemente destituídos de beleza, mas tão aplicáveis ao palco, ao púlpito, ao palanque:

A multidão aclamará
Rei
o homem que se apresentar
vestido de espelhos.

Segundo o filósofo Xenófanes (nascido por volta de 570 a. C.), o homem é que criou Deus (ou os deuses) à sua própria imagem e semelhança.

A religião instituída, dogmatizada é a acomodação das ideias. Diferentemente do filósofo ou do cientista, que está sempre sujeito aos abalos sísmicos da dúvida, o religioso alcançou seu porto seguro, adquiriu respostas para todos os problemas e, pior ainda, não tem mais perguntas a formular. Este mundo já lhe foi contado em miúdos, e o outro também.

O ser humano não nasceu com o dom de compreender todas as coisas, mas tem necessariamente a vocação da procura. Ciência é procura. Filosofia é procura. Arte é procura. Só a religião é que é certeza? Quanto mais buscamos respostas mais encontramos mistérios. Definir é reduzir. Por isso Deus não cabe em definições. Eu só consigo percebê-lo como um ser imenso, incognoscível. Kalhil Gibran sabia disso ao afirmar:

Quando um de vós ama, que não diga: “Deus está no meu coração”, mas que diga antes: “Eu estou no coração de Deus”.

Se fomos criados à imagem e semelhança de Deus, não seria Deus egoísta... e invejoso... e falador da vida alheia... características tão pertinentes a esse espectro chamado homem? Ah, mas me diriam: o homem deturpou-se pelo pecado original. Antigamente, eu acreditava no homem como uma criatura a caminho da luz. Mas hoje em dia não é fácil, se olho os escombros ao redor. Uma coisa é certa, não pretendo recair no velho equívoco, o de apregoar o absoluto, pois quem pensa conhecer a verdade absoluta deve estar absolutamente enganado.

Não consigo conceber um Deus que caiba na palma da minha mão, explicadinho, analisado ou antropomórfico. No entanto, respeito a experiência interior do encontro com Deus, sem o contraponto necessário da decifração, porque aí eu pretensiosamente passaria por semideus. Nada deixa de existir por ser incompreensível, registrou Blaise Pascal.

Einstein, que além de cientista era um humanista, e pôs abaixo a premissa obsoleta de que a ciência se opõe à fé, declarou:

Saber que existe algo insondável, sentir a presença de algo profundamente racional, radiantemente belo, algo que compreendemos apenas de forma rudimentar – esta é a experiência que constitui a atitude genuinamente religiosa. Neste sentido, e neste sentido somente, eu pertenço aos homens profundamente religiosos.

A compreensão de Deus requer acima de tudo humildade, para que não saiamos por aí de dedo em riste, a apontar o argueiro no olho do irmão, porque nesta hora sim, precisaremos de espelho para enxergar a trave transpassada em nosso próprio olho.

Contudo, prefiro dizer que entre a avidez dos filósofos, a exatidão dos cientistas, a convicção dos teólogos, fico com a dúvida do poeta:

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
e sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim, pensar nisso é fechar os olhos,
porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
de todos os filósofos e de todos os poetas.
(Fernando Pessoa)




por Carlos Vazconcelos, março/2006





19 de set. de 2011

ENCONTRO COM O BELTRÃO

Programa Sem-Fronteiras, Plural pela Paz
(Rádio Universitária de Fortaleza - UFC)

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por Carlos Vazconcelos



"Tem gente que veio pra ficar (...)
A casa nossa de cada dia
tem coração."
Henrique Beltrão

A convite do Poeta, Compositor e Professor Henrique Beltrão, sábado passado (17/9/11), participei do Programa Sem-Fronteiras, Plural pela Paz, na Rádio Universitária.


Beltrão é figura ímpar, mas sua mente é plural. Sempre sorridente e muito cortês, seu abraço é amplo porque seus gestos apenas traduzem de maneira espontânea sua espiritualidade. Eu já era ouvinte do programa, cuja proposta é evidenciar os valores culturais da terra, é cultuar a música de qualidade e a poesia, é instigar a boa conversa. Falamos sobre o projeto Bazar das Letras, sobre o livro Mundo dos vivos e sobre as amizades. Recitamos versos, tiramos fotografias, autografamos e sorteamos livros. Ao final, recebi belíssimo presente, o CD Cândidos, interpretado pela Simone Guimarães, todo com músicas de Isaac Cândido. A casa nossa (faixa mais bela, juntamente com Além das fronteiras), é uma parceria do Cândido com o Beltrão e tem participação vocal de Raimundo Fagner. As duas músicas vieram para ficar, são daquelas que batem no córtex cerebral e descem de imediato para o compartimento do assovio. Foi uma tarde muito proveitosa, porque a arte foi celebrada, as almas foram tocadas e o silêncio, o tão precioso silêncio, só foi substituído pelo colóquio das vozes.

Beltrão, meu irmão, nem é preciso pedir que continue assim, porque você é assim, caráter elevado, viajante da poesia, nauta da sensibilidade. Seu coração é uma ampla casa com varanda e quintal.


25 de ago. de 2011

A EMOÇÃO DE UM PREMIADO




por Juarez Leitão

Quando o telefone tocou, Carlos Vazconcelos imaginou que fosse um novo pedido. Estava acomodado em seu birô no pequeno escritório da bomboniere, cercado de pilhas de embalagens de chocolates, pirulitos, balas de todos os gostos e de todas as cores, no meio daquele cheiro bom de tutti-frutti, aproveitando também o hiato de tempo sem fregueses para pôr em dia as leituras.


Carlos Vazconcelos, graduado em Letras, professor de Português, pensou em melhorar sua renda, aquele dinheirinho curto do magistério, instalando um pequeno comércio de bombons num ponto do quadrilátero da praça do Mercado São Sebastião, no fervilhante bairro do Otávio Bonfim.

Estamos no segundo semestre de 2007. Sua lojinha tem apurado que fica muito aquém das esperanças que o animavam quando se propôs a cultivar aquela atividade paralela, um ganho extra para completar a receita familiar.

Com sua imaginação de ficcionista e nefelibata inveterado, chegou a sonhar com prosperidade exuberante, quem sabe um supermercado ou mesmo uma rede deles, a competir com os grandes e a se espalhar pelo país inteiro, um império mercantil empregando milhares de brasileiros e patrocinando atividades culturais. Depois viu que aquela não era a sua praia. As vendas eram acanhadas e os lucros ridículos, depois do pagamento dos encargos, fretes, impostos, energia e telefone. Decididamente, não iria ficar rico e o mais certo seria desistir daquilo, repassar o ponto e multiplicar sua carga horária nas salas de aula, porque, agora sabia, ensinar fora a arte que Deus lhe dera e onde deveria ganhar o pão.

Desde menino sentia que estava destinado às letras. Lá no Tianguá, onde nascera, pegou fama de devorador de livros. Na cidade serrana, do vigário ao juiz, todos sabiam que o menino Bebeto iria ser professor e possivelmente um escritor. Quando visitava a biblioteca municipal, murmurava para o seu coração: um dia estas prateleiras vão ter os meus livros, contos e romance de minha autoria... e via, no seu sonho de menino, o dorso dos volumes com o seu nome impresso: Carlos Roberto Vazconcelos. A Serra Grande já dera ao Brasil grandes escritores. Viçosa, o Clóvis Beviláqua; São Benedito, o filósofo Farias Brito; Ubajara, o Raimundo Magalhães Júnior... O clima frio da serra ativava a criatividade.

Quando veio para Fortaleza sabia que estava dando linha para seu destino. Concluiu o curso secundário, foi aprovado no vestibular e, bacharel em Letras, passou a dar aulas. Uma coisa que sempre fez foi escrever. Sempre gostou de rascunhar as idéias que lhe passam pela mente e, revivendo velhas histórias do torrão natal, armar contos com a técnica que aprendeu na faculdade. É um narrador, um bom contador de histórias.

Agora está ali, no calor da tarde, mal acomodado na função de pequeno comerciante, quando toca o telefone. Do outro lado da linha a voz feminina se identifica. É a escritora Regina Fiúza, diretora administrativa da Academia Cearense de Letras, que quer lhe comunicar que ele, o professor Carlos Roberto Vazconcelos, que concorrera com o pseudônimo de Kalil Kaleb, ganhara o Prêmio Osmundo Pontes 2007, categoria contos (O outro vencedor foi o poeta José Telles, na categoria poesia, com a obra Silhueta).

A notícia o engasgou momentaneamente. Era o entalo da emoção. Respondeu, quando pôde, que se sentia muito feliz por ganhar aquele prêmio, pela importância que representava e por saber que seu livro Mundo dos Vivos fora avaliado e distinguido por uma plêiade de intelectuais da melhor monta. Sabendo, outrossim, que concorrera com dezenas de outros trabalhos, alguns até de autores consagrados, e, mesmo assim, havia conseguido o primeiro lugar.

Naquele momento foi arrebatado pelas lembranças de seus sonhos da infância e parecia que o frio da serra, aquele vento gelado da Ibiapaba, lhe tomava o estômago, provocando uma espécie de vertigem. Num círculo enevoado nas imagens que passavam diante dele, viu o pai, a mãe, as tias, os irmãos, as crianças colhendo mangas e pitombas nos Taquari, os vendedores de doce de jaca nas barracas da saída da cidade, o padre Tibúrcio e o bispo Dom Timóteo celebrando a Semana Santa, Das Dores, a lavadeira, e a dona Beta das broas... todos sorrindo e aplaudindo o desempenho do garoto Bebeto, o filho de seu Albercy e da Dona Nadir, que virara escritor na capital e agora estava ganhando prêmios, feito um danado da literatura.

A noite o encontrou naquele inebriante estado de felicidade, vivendo uma alegria inusitada. Já ganhara outro prêmio literário no ano anterior. Mas o Prêmio Osmundo Pontes era outra coisa, uma verdadeira consagração. Estaria agora fazendo companhia a sumidades da literatura cearense que o haviam antecedido naquela importante premiação. Gente do porte de Costa Matos, Natércia Campos, Batista de Lima, Luciano Maia, Carlos Augusto Viana, Tércia Montenegro e Pedro Salgueiro, dentre outros ilustres.

Naquela noite insone viu o filme do passado e praticou a projeção da noite da entrega do prêmio para os próximos dias, a festa esplêndida no hotel Gran Marquise, anfitrionada por dona Cibely Pontes, todos aqueles convidados, os discursos, os aplausos...

Tempos depois, declarava num depoimento comovido: “Considero o Prêmio Osmundo Pontes um divisor de águas na minha carreira literária, pelo alto conceito que desfruta entre os escritores do Ceará e do país. O Prêmio Osmundo Pontes é o Nobel cearense.”

LEITÃO, Juarez. Panateneias: a história do prêmio Osmundo Pontes. Fortaleza: Premius Editora, 2009, p. 17 a 23.

17 de ago. de 2011

UMA LUZ VERMELHA NO BAZAR


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Pedro Salgueiro especial para O POVO, Caderno Vida e Arte (17/8/11)

Há mais de três anos um programa (*) de entrevistas e lançamentos de livros (idealizado pelo grupo de leitura “Abraço Literário” e executado pelo escritor Carlos Vazconcelos) vem mapeando os escritores cearenses com uma competência extraordinária. Todas às últimas terças-feiras de cada mês na Galeria do Teatro Sesc Emiliano Queiroz (Av. Duque de Caxias, 1701) um jovem poeta, uma escritora já consagrada, um teatrólogo de valor, um estudioso da literatura, estará sendo minuciosamente entrevistado pelo competente mediador.

E são iniciativas como estas, que passam quase despercebidas nos nossos meios de comunicação, que fazem a verdadeira história cultural de um povo.

Mais de 40 escritores passaram por lá, do grande Jorge Tufic à estreante Ana Cristina Moraes, da talentosa Inez Figueredo à jornalista Mônica Silveira, do contista Júnior Ratts ao poeta Elias de França, dos crateuenses Luciano Bonfim e Silas Falcão aos professores Batista de Lima e Aíla Sampaio, só para ficar em alguns poucos nomes.

Mas no próximo dia 30 de agosto uma luz vermelha se acederá no Bazar das Letras: o contista e mestrando em Literatura na UFC, Carlos Vaz, vai entrevistar um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, o poeta, romancista, estudioso de literatura e principalmente contista Nilto Maciel.

Maciel é o mais importante escritor de sua geração no Ceará, fabulosa geração que nos deu nomes importantes como Gilmar de Carvalho, Airton Monte, Carlos Emílio Corrêa Lima, Barros Pinho, Paulo Veras, Marly Vasconcelos e muitos e muitos outros grandes artistas.

Luz Vermelha que se Azula é um livro marcante, de uma inventividade singular; obra mesmo de mestre da narrativa curta. Onde cada conto fica rodopiando em nossas cabeças, como obra inacabada que procura em nós (leitores) parceiros e cúmplices para sua perfeita execução. Contos curtos que se agigantam em nossas mentes, instigando nossas imaginações a continuarem infinitamente as histórias que ele talha, esmera e lima com precisão de artista consciente de seu valioso ofício.

Conclamo a todos os amantes da literatura a, desde logo, marcarem em seus calendários, botarem lembrete em seus celulares, pregarem bilhetinhos na estante, reservando o dia 30 de agosto (uma terça, às 19h, no Teatro do SESC da Duque de Caxias) para irem saber um pouco sobre a brilhante magia desse que é um dos maiores escritores que o nosso Ceará já produziu.

(*) O projeto Bazar das Letras do SESC, mediado pelo escritor Carlos Roberto Vazconcelos, receberá Nilto Maciel e lançará Luz Vermelha que se Azula, ganhador do Prêmio Moreira Campos de Contos da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Informações: (85) 3452.9032







4 de ago. de 2011

ZEROS À DIREITA



Fábio Marques (Especial para O Caderno 3 - jornal Diário do Nordeste, 31 de julho de 2011)


Tema de uma polêmica antologia, organizada por Nelson de Oliveira, os escritores da geração 00 são tema da edição de hoje do Caderno 3

Escritores de um novo tempo, os autores que despontaram na confusa primeira década do século XXI se veem confrontados por uma série de desafios. Ora é o papel que vacila, ameaçando sair de cena para dar espaço a novos suportes de leitura, ora é a verborrágica internet, incubadora de novos literatos, que exige a reinvenção diária e, por que não dizer, a maledicência de antecessores. Tema de uma polêmica antologia, organizada por Nelson de Oliveira, os escritores da geração 00 são tema da edição de hoje do Caderno 3, que navega por uma escrita em busca de identidade e disposta a levar a literatura por mares nunca dantes explorados.

Inspirado pela coletânea "Geração Zero Zero", organizada por Nelson de Oliveira, com contos de autores brasileiros que ingressaram na literatura a partir do ano 2000, o Caderno 3 lançou-se ao desafio de responder a instigante questão: quem faz a nossa Geração 00?


Assumindo os riscos e as ciladas que assombraram Nelson de Oliveira - questionado sobre os nomes que ficaram de fora e acusado de falacioso e interessado em fazer "marketing literário" - e nos eximindo, de antemão, da intenção de chegar a uma lista definitiva da nova geração cearense, rastreamos algumas dessas mentes literárias que se destacam e começaram a publicar seus textos com o ingresso do novo milênio.

Seguindo a cartilha do bom jornalismo, procuramos alguns escritores cearenses já consagrados, que acompanham a produção literária do Estado para nos ajudar a desvelar essa geração. A primeira conversa é com Pedro Salgueiro, escritor iniciado na década de 1990, autor de livros como "O Peso Morto" (1995) e "Inimigo" (2007), e editor das revistas literárias Caos Portátil (um conhecido celeiro de novos talentos das letras cearenses) e, mais recentemente, Para Mamíferos.

Pego de surpresa e assustado com a dimensão e responsabilidade da tarefa, Pedro adverte que o início da década foi uma época de intensa produção literária no Estado, com muitos e bons autores. Como referência, ele utiliza os textos publicados nas duas revistas que edita. "Nessas revistas têm surgido muitos autores bons. Tem muito mais gente boa escrevendo por aí, mas você acaba esquecendo", diz.

Entre os novos contistas, ele cita Carmélia Aragão, premiada pela Secretaria da Cultura do Estado, por seu livro "Vou esquecer você em Paris" (2007). "É uma boa contista, que começou publicando no Caos Portátil. Ganhou um prêmio e está escrevendo outro livro", revela.

Outro bom nome é o jornalista Alan Santiago, autor da coletânea de contos "A Lua de Ur Num Prato de Terra", vencedor do edital da Secult, em 2009, editado pela coleção Rocinante, da conceituada 7 Letras. "Agora, o Alan ganhou uma bolsa da Funarte para escrever um romance", adianta Pedro Salgueiro, que acompanha os passos desta promessas literárias. Ele destaca a inventividade e a pesquisa como traços importantes na obra destes dois jovens autores. "Eles conseguem fugir do somente contar história, têm um estilo bem arrojado", afirma.

Pedro cita ainda Renato Barros de Castro, que também se sai bem escrevendo contos e publicou biografia do jornalista Lustosa da Costa e, recentemente, um livro de crônicas. Outro destaque é Raymundo Netto, que apesar de ter nascido em 1967, bem antes da maioria dos escritores citados como sendo da geração 00, teve seu primeiro livro, o romance "Um Conto no Passado: cadeiras na calçada", outro vencedor de edital estadual, em 2004. "Como a geração é baseada em quando começou a publicar (ele se encaixa)", justifica. O trabalho de Raymundo Netto se destaca pelas referências históricas que utiliza em suas ficções. "É uma novidade em termos de ficção", declara.

Bastante aclamado por Pedro, Dércio Braúna entra na lista dos poetas, destacando-se também por trabalhos acadêmicos sobre literatura. "Ele publicou um livro sobre Mia Couto e a cultura moçambicana. É um estudioso sobre cultura africana em língua portuguesa", descreve. E, ainda entre os poetas, ele cita diversos, como Webson Moura, Ayla Andrade, Mardônio França, proprietário da revista virtual e selo editorial Corsário. Também entre os poetas, Ylo Barroso, Manuel da Fonseca, editor da revista Pindaíba, e o Poeta de Meia Tigela. Este último, destacado por Salgueiro como, indubitavelmente, "um dos melhores dessa geração".

Por fim, ele cita Urik Paiva, "que não tem livros publicados, mas é um bom escritor, muito jovem", e Carlos Roberto Vazconcelos, que escreveu o livro de contos "Mundo dos Vivos".

Geração virtual

Professora do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal do Ceará, Tércia Montenegro bateu na trave da Geração 00. Ela publicou o seu primeiro livro de contos "O Vendedor de Judas", em 1998. Tércia não arrisca muitos palpites, certa de que Pedro Salgueiro já teria citado quem também considera importante. Ela complementa, no entanto, a lista com os nomes de Tárcio Pinheiro, autor de "Janela Para o Caos", e Kelson Oliveira.

Tércia reforça a importância da popularização da internet como marco diferencial dessa geração. "Eles têm essa facilidade do suporte da internet, dos blogs, das redes sociais, a descoberta do nanoconto, através do Twitter", aponta. Para ela, apesar de ser utilizada por escritores de todas as gerações, a internet é assimilada com mais naturalidade pelos mais jovens. "Esses autores já nasceram com essa convivência. Coisa que, para nós, requer adaptação, conhecimento", avalia.

Ela destaca ainda que essa relação intima com a internet interfere na própria linguagem do grupo, tornando-a mais sincrética com as características da web. "A maioria já nasce impregnada disso. Mesmo que muitos não usem com frequência (a internet), mas são afetadas pela atmosfera da época", avalia. Tércia adverte, entretanto, que uma conclusão mais contundente sobre o assunto só poderia ser tomada com um estudo acadêmico. Esta é a constatação em primeira impressão.

O terceiro a nos guiar pelas letras do início do século é o escritor Jorge Pieiro. Ele participou das duas coletâneas Geração 90, de Nelson de Oliveira, e também coedita as revistas Caos Portátil. Apesar de considerar forçado o recorte proposto por Nelson, Pieiro dá dicas.

Anna K., Joyce Nunes, Mariana Marques e Natércia Pontes são os nomes que primeiro lhe vêm a mente, como destaques no conto. As quatro lançam em breve um livro coletivo com outros autores, entre os quais, o próprio Jorge, com narrativas sobre Fortaleza.

Ainda que compartilhe com Tércia a opinião de que esses novos escritores são marcados pela internet, Jorge alerta que isso não dá propriamente uma unidade, não cria um movimento para essa geração. "É apenas um condicionamento", ressalta. E como exemplo, ele cita ainda Airton Uchoa. "Estou lendo um romance que ele vai lançar, que é completamente diferente (do que é condicionado pela internet). Ele é verborrágico diante de uma situação que é concisa", revela.

A relação de novos talentos é extensa e este espaço curto. Como não poderia ficar de fora, completando nossa relação de 21 autores (à exemplo do livro de Nelson de Oliveira), citamos Sidney Rocha. Natural de Juazeiro do Norte e residente no Recife, Sidney é o único autor cearense que participa da coletânea dos Zero Zero. Ele publicou, em 2009, o livro de contos "Matriuska", pela editora Iluminuras. E que mais autores, outros bons escritores dessa geração, venham a nos contestar e ampliar este quadro.

A geração que faz o caminho inverso

Porta de entrada de dez entre dez novos escritores, a internet não tem quebrado o encanto das novas gerações como os velhos formatos do livro e das revistas. Se já da geração de 1990, Nelson de Oliveira compilou o livro "Geração 90: Manuscritos de Computador", na década seguinte, dos 00, à depender da tecnologia, os manuscritos estariam definitivamente digitalizados e o papel seria um mero capricho. O surgimento de inúmeros espaços virtuais para a literatura (que segue se multiplicando em sites, redes sociais, blogs, microblogs) facilitou a propagação de textos literários e o surgimento de inúmeros autores, dispersos em um amálgama confuso e volátil, onde muitas vezes não se sabe quem é o que, nem o que é de quem.

Diante desse caldo ciberespacial, percorrendo caminho inverso aos de 1990 (que migraram do impresso para a internet) os jovens escritores recorrem às mídias mais tradicionais em papel como jornais e revistas literárias, além do livro, como forma de se destacar e fixar seus nomes enquanto autores. Para Jorge Pieiro, que edita a revista Caos Portátil ao lado de Pedro Salgueiro, a tendência é que esses veículos ganhem novamente força após a euforia inicial da internet. "Estamos em uma fase de transição. Todos vão pensar ´esquece o livro, é tudo virtual´, mas acho que lá na frente volta. É o eterno retorno", defende.

Pedro Salgueiro calcula que entre 60% e 70% dos textos publicados na revista são de autoria de escritores que surgiram a partir do ano 2000. Apesar dos sites estarem em alta, os periódicos ainda mantêm sua função histórica de agrupar gerações escritores, a exemplo do jornal O Pão, jornal do grupo Padaria Espiritual, que marcou a virada do século XIX para o XX, a Revista Clã, editada nos anos 40 pelo grupo Clã, O saco, nos anos 70 e, à partir de 2005, a Caos Portátil. Pedro edita ainda a revista Para Mamíferos, ao lado de Glauco Sobreira, Nerilson Moreira, Tércia Montenegro e Jesus Irajacy. Muitos jovens autores cearenses também recorrem ainda a publicações em veículos não especializados, no exemplo recente da extinta Revista Aldeota, de cunho jornalístico, além de editoras locais, no caso dos livros, como a La Barca e a recém criada Dedo de Moça.

Para Jorge, os textos publicados em revistas eletrônicas não suprem o desejo dos autores de ter seu texto impresso. A revista é, nesse sentido, uma maneira de amplificar o que antes era personalista, publicado em um blog ou site pessoal. A revista serviria como forma de reconhecimento junto ao meio literário. "Se fulano escreve na revista A, B ou C, então ele já tem um grau de importância. No livro ele diz ´Ah, agora estou imortalizado´", brinca, justificando que o mesmo sentimento não acontece com a publicação na web.

Outro ponto que ajuda a justificar o número crescente de publicações em papel é o barateamento do processo, fruto também do avanço tecnológico, e iniciativas públicas e privadas de custeio das publicações. "Os editais propiciam que todo mundo publique. Coisa que, nos anos 90, nós não tínhamos".